Uma manhã em Madrid de las Letras – parte 2

Interessados em ver onde morava Miguel de Cervantes, deixamos a casa “malícia” do Lope de Vega, dono de estatísticas impressionantes como já vimos na passagem anterior, mas que não contamos outros números de cair o queixo; foram 2 casamentos, muitas amantes, muita história escapando a alcova dos nobres, 8 anos de ostracismo e mais 15 filhos. E se ainda não bastasse, era padre quando teve sua última filha. 

Lope Vega

Agora, a malícia da sua casa não era essa que resultaria em 15 filhos, era de outra natureza, era tributária. Quando Madrid converteu-se em capital do Reino da Espanha, em 1561, a cidade continha algo no entorno de 30000 habitantes, metade da capital Toledo de então. Para abrigar parte da nobreza e agregados migrados da antiga capital, impôs o Felipe II, rei da época, o decreto de desapropriação dos segundos andares das residências que assim o tivessem e muitos madrilenhos passaram a alterar a fachada de suas casas com janelas enormes, portas gigantes, com o propósito de ludibriar a fiscalização dos imóveis afim de não ter parte do seu bem cedido aos interesses da coroa. Esta prática permaneceu em Madrid até a segunda metade do século XVIII, quando com novos regimentos urbanos, Carlos III desbaratinou a prática das malícias. 

 

Mais claro algumas coisas do período, vamos para a casa do Cervantes, mas antes, permitam-me passar pela rua Quevedo, aqui à nossa esquerda. Não sei se já ouviram falar de Francisco Quevedo, porém é um dos grandes nomes da segunda geração do século de ouro das artes espanholas. Foi contemporâneo e amigo dos desafetos Cervantes e Vega e em contraste aos dois, teve uma vida privada que não avançava à pública, entretanto nem precisava, porque a quantidade de inimizades que ganhou por seus preconceitos com outros escritores o fizeram protagonizar uma das mais rocambulescas narrativas dos anos 1600. Seu maior desafeto era Luís de Góngora, a quem um e outro dedicavam-se vários textos difamatórios. 

 

No final desta rua, que seguimos até esquina com a Calle Lope de Vega, à nossa esquerda, vemos uma placa dizendo-nos que aqui teve lugar a casa própria de Quevedo. Entretanto, este não se tratava do imóvel de moradia do criador do  barroco e sim do Gôngora, que pela boêmia inveterada e em desastre econômico viu-se obrigado a se desfazer do imóvel e quem o compra? Isso mesmo, Quevedo. E para quê? Já vimos que santa não era a alma do Francisco; ele compra o apartamento e despeja seu arquirrival, avesso, inimigo, obrigando a contar com favores amigos para seus últimos momentos de vida quase na sarjeta. 

 

Sem muito andarmos, avistamos na calçada à frente, já na Rua Lope de Vega um grande e antigo edifício dominado por uma nave central em claro formato de igreja. Esta construção é o Convento das Trinitárias Descalças, ordem de origem francesa e estabelecida na Espanha por conta do terceiro casamento de Felipe II, agora com Isabel de Valois, aparentemente sua esposa mais querida. Estamos falando de mais uma edificação quadricentenária e que se suspeitava  hospedar os restos mortais de Cervantes, mas a lenda urbana só foi vencida pela ciência em 2015, quando confirmaram que uma das ossadas aí depositada é a do escritor de Dom Quixote. 

 

E por que Miguel está aqui e não em um panteão, como o existente em Paris? Porque estamos na Espanha, estamos num país de longa tradição católica associada ao Estado e à monarquia. Não é a república francesa que se coloca acima das vontades particulares. O sepultamento do maior escritor espanhol respeitou seu testamento: repousar dentro da ordem a qual era devoto. 

 

E sua devoção remonta à juventude, a sua captura por piratas magrebinos no Mediterrâneo retornando da Batalha de Lepanto, em meados dos anos 1570, onde um ferimento de guerra o paralisou a mão esquerda resultando-lhe um jocoso apelido “O Manco de Lepanto”, que o acompanhou ao longo da vida.  Desta apreensão, vieram cinco anos de escravidão porque o resgate pedido por seus sequestradores, 500 escudos, eram uma fábula que a monarquia espanhola negou-se a pagar.  A chegada da ordem à Espanha trouxe um ar meio civilizatório ao pão-durismo espanhol e numa bela vaquinha com a elite da época, recolheu os fundos para pagar seu resgate e de seu irmão, Rodrigo. Daí veio o perpétuo agradecimento cervantino às Trinitárias. 

View this post on Instagram

Esta serie compartilho com minha filha Luana. @lusalii Será sobre literários e personalidades que marcaram a história em Espanha. Queremos sua participação. Durante o vídeo, no meio da história deixaremos uma PISTA para que você possa ADIVINHAR a resposta. Para isso é importante você assistir o vídeo inteiro. Se você não souber, corre lá no Google! Iniciamos a série, com nosso querido Miguel de Cervantes. Quero saber sua opinião, o que você achou? Gostou da brincadeira? Escreva abaixo a resposta do vídeo Se você tiver filhos, assista com eles. E se você já leu DON QUIJOTE DE LA MANCHA, comente abaixo.👇🏽👇🏽👇🏽 Espero que gostem ! 🥰 #migueldecervantes #donquijote #historia #jogosparacrianças #maeefilha #videoseducativos #curiosidades #espanha

A post shared by Receptivo Brasileiro em Madrid (@descubra_madrid) on

– Maravilha, queremos ver a casa do Cervantes. – Ok, vamos lá. Voltamos pela rua do Quevedo, que não é dele e sim do Gôngora (e também do nascimento do primeiro prêmio Nobel em literatura em língua espanhola, José Echegaray, em 1905). – Lindo, mas queremos ver a casa do Cervantes. – Sim, claro, afinal já há uns oito parágrafos que lhes disse que era isso que faríamos. Depois de sugerir o La Entretenida como um dos bons lugares para se comer no bairro, junto com o Barril de las Letras, dobramos à esquerda e vamos até o começo da rua, na Cervantes nº 2. 

 

Fotos, poses, estamos onde o cara mais lido do planeta viveu. Contudo não poderei evitar decepcioná-los. Este prédio que nós temos à vista não é a original donde morava o ilustre nascido em Alcalá de Henares. Seu prédio foi derrubado em 1833 por um proprietário da quadra, Luis Franco. Foi a maior polêmica, mas fez-se valer a vontade do dono do pedaço que rejeitou inclusive oferta do rei Fernando VII. O que faríamos em outros momentos seria contar mais sobre a vida do escritor, mas deixamos para a Luana e Andrea que a registraram barbaramente no Instagram. Vamos até a Praça de Santa Ana, temos certeza de que gostarão.

 

 

Viramos à nossa esquerda, – madre mia, só viramos à esquerda, bateu uma tontura. – Na próxima esquina prometo que será à direita. Agora estamos na calle de León e aproveito para mostrar-lhes uma plaquinha que há aqui no chão, à frente da Farmácia Léon. – Conseguem ver a data escrita? – 1700? – Isso mesmo, 1700. Mais de 300 anos de existência este estabelecimento e não é o mais antigo da cidade! A plaquinha é um reconhecimento oficial da prefeitura às lojas que alcançam cem anos de existência; é uma forma de proteger o pequeno e tradicional negócio com algumas isenções e estímulo turístico. 

 

Seguimos mais alguns metros e dobramos à direita, na calle de Huertas. Acabou a tontura. Esta rua é uma graça como podem perceber, com estas árvores, que acreditamos tratarem-se da árvore do amor, e com este calçamento que parece ardósia cheio de passagens de obras dos ilustres moradores do bairro. Em ambos os lados da rua podemos notar a biografia dos vários escritores espanhóis que residiram por estas andanças. Adoraríamos falar de cada um, mas já repararam que se for assim não veremos tudo o que precisamos.

 

Um pouco à frente, na Calle del Príncipe, contornamos à direita e ao lado esquerdo vemos a sede da Câmara de Comércio de Madrid, num lindo edifício infelizmente não aberto à visitação, o Palácio de Santoña, talvez o mais belo edifício privado da cidade. De todos os modos, logo à frente chegaremos à praça de Santa Ana. Já avistamos um longo edifício de fachada neoclássica e nos aproximamos a ele. Trata-se do Teatro Espanhol, que já teve outros nomes, como Teatro del Príncipe e Corral del Príncipe. Existe aqui desde os anos 1580. Mais um quatrocentão na cidade e é justamente esta obra a responsável por tanta gente associada às letras viverem neste bairro, o teatro mais antigo da cidade. 

 

Atravessemos a rua e contemplemos a fachada do teatro. Imediatamente identificamos uma estátua, de escala natural onde seu personagem tem seu nome estampado no canto esquerdo da fachada do Teatro Espanhol, trata-se de Federico Garcia Lorca, poeta e dramaturgo granadino, morto aos 39 anos, em 1936, pelas forças franquistas, no começo da guerra civil espanhola. Infelizmente, até hoje seu corpo não foi localizado, junto aos outros 130000 desaparecidos do lado republicano da guerra. A Espanha é o segundo país do mundo com maior número de desaparecidos, perdendo apenas para o Camboja. 

 

Mas falemos de coisas mais amenas, a Guerra Civil deixamos para outro momento. Olhem que delícia esta quantidade de mesas, bares tomando parte da praça e ainda mais com aquele lindo edifício branco, que de noite ganha uma iluminação super modernosa de encher os olhos. Tem até um playground como podem ver do nosso lado direito. Recreio para toda a família: tapas, bebidas, bom clima, alguns bares históricos, como a Cerveceria Alemana (que existe desde 1904), enfim, sugerimos aproveitarem este entorno e que desfrutem do bairro, dos seus espaços de lazer e a deliciosa atmosfera meio turística e calma do bairro. Até nosso próximo passeio “desde Madrid al Cielo”. 

 

Se você ainda nao leu a primeira parte do texto. Clique aqui

Quer conhecer nossas dicas de Hotéis.

 

 

Leave a Comment

Your email address will not be published. All fields are required.